EDITORIAL | Os impactos das mudanças climáticas nas doenças imunoalérgicas
Os impactos das mudanças climáticas nas doenças imunoalérgicas
*Dra. Marilyn Urrutia Pereira
As mudanças climáticas estão causando alterações significativas nos padrões climáticos e intensificando eventos extremos ao redor do mundo, como secas, ondas de calor, incêndios florestais, tempestades e inundações.
Sistema Imunológico
As exposições ligadas às mudanças climáticas ativam processos celulares e moleculares complexos, afetando tanto as vias inflamatórias quanto a tolerância imunológica. Como resultado de interações ambientais e imunológicas, as doenças alérgicas estão cada vez mais surgindo ou se agravando.
Ondas de calor
Os efeitos do calor extremo e a exposição direta da pele a toxinas e poluentes desencadeiam a produção de TSLP, IL-33 e IL-25, levando ao estresse oxidativo, danos ao DNA, necrose e aumento da permeabilidade da barreira dérmica. Esses eventos operam de forma sinérgica e resultam em defeitos na barreira cutânea, ocasionando o desenvolvimento e amplificação de inflamação cutânea aguda e crônica.
O estresse ambiental, gerado pelas mudanças climáticas, pode prejudicar o desempenho durante a prática de esportes/recreação ao ar livre. Respirar ar quente e úmido durante o exercício induz tosse e broncoespasmo em indivíduos com asma.
Polens
As mudanças ambientais e o aumento da concentração de CO2 na atmosfera induzem o crescimento acelerado de plantas, maior intensidade e duração da floração, o início mais precoce da temporada de pólen, além de um maior conteúdo alergênico desses elementos.
Uma das consequências mais significativas das alterações climáticas na saúde humana é o impacto sobre os aeroalérgenos transportados pelo ar como fungos e polens, facilitando o desenvolvimento de doenças respiratórias alérgicas, como a asma e a rinite alérgica.
Devido ao aquecimento global, as estações polínicas tornaram-se mais longas e intensas, e os polens com alergenicidade potencialmente maior, ocasionando taxas mais elevadas de sensibilização e doenças.
Durante uma tempestade, grãos inteiros de pólen (≥20 μm) são dispersos para cima e horizontalmente no ar, transportando partículas de subpólen por longas distâncias.
Ciclones, Tempestades e Inundações
O aquecimento global torna os ciclones tropicais muito mais úmidos. O ar mais quente retém mais umidade, o que ocasiona chuvas extremas, resultando em inundações catastróficas que devastam comunidades, favorecem ambientes interiores propícios para o desenvolvimento de ácaros e mofo, propiciando o desencadeamento de crises de asma e de rinite alérgica.
Os eventos que determinam inundações de início súbito impedem a preparação para tal contingência e acarretam problemas imediatos com risco de vida (eletrocussão, afogamento, traumas), além de problemas de saúde imediatos e de longo prazo (respiratórios, infeções).
Há também riscos de infecções provocadas por diferentes agentes, como aqueles transmissíveis pelo ar, ou feridas na pele expostas à água contaminada durante as inundações. Há aumento dos atendimentos nas emergências por sintomas catarrais das vias aéreas superiores: amigdalites, faringites, laringites, sinusite; infeções respiratórias inferiores: pneumonias virais e bacterianas; piora dos sintomas de asma brônquica e rinite alérgica com aumento das taxas de prescrições de medicações de alívio (inaladores pressurizados), anti-histamínicos e aumento do número de hospitalizações.
O crescimento de mofo em ambientes internos após as inundações, também favorece o desenvolvimento de doenças alérgicas, ainda em indivíduos que não estavam previamente sensibilizadas a algum alérgeno. As paredes úmidas, também podem liberar compostos orgânicos voláteis (VOCs) e outras substâncias nocivas que se acumulam nos espaços internos e favorecem o aumento de sintomas alérgicos e respiratórios como asma, rinite, conjuntivite, lacrimejamento e secura na pele.
Incêndios florestais
Os impactos nos sintomas respiratórios, decorrentes da exposição a poluentes ambientais produzidos pelos incêndios florestais, são causados por diversos fatores, como a composição química da fumaça, a concentração dos poluentes, bem como a intensidade e a duração da exposição.
Os incêndios florestais produzem uma variedade de poluentes, incluindo CO, SO2, COV, CO2, metais tóxicos, PM2,5 e PM10 e outros. Dependendo da natureza e da estrutura dessas substâncias gasosas e particuladas, desencadeia-se uma cascata de inflamação aguda pela ativação dos receptores Toll-like (TLR), seguida pela produção de citocinas pró-inflamatórias.
O estresse oxidativo induzido pela fumaça de incêndios florestais causa danos à barreira epitelial e liberação de mediadores pró-inflamatórios, aumentando a resposta imunológica a alérgenos e a sensibilização alérgica. A exposição recorrente a poluentes de incêndios florestais foi associada a respostas alérgicas intensificadas, ocasionando potencialmente ao agravamento da asma ao longo do tempo, bem como à remodelação persistente das vias aéreas.
As potenciais consequências das mudanças climáticas para a saúde são imensas; gerenciar esses impactos representa um enorme desafio. Não apenas há impactos diretos, sobre os saudáveis, mas também para aqueles com comprometimento da saúde, que normalmente estarão na vanguarda dos vulneráveis, pois muitas condições crônicas de saúde reduzem a resiliência, a mudanças e os desafios.
Os profissionais de saúde devem aconselhar seus pacientes sobre as maneiras de minimizar a exposição a eventos climáticos extremos ou picos de emissões, principalmente nos grupos mais suscetíveis e vulneráveis.
*Dra. Marilyn Urrutia Pereira é Coordenadora da Comissão de Biodiversidade, Poluição e Clima da ASBAI
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