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Boletim ASBAI Edição Nº 103 21 de julho de 2025

ACONTECEU NA ASBAI | Highlights EAACI 2025 e Triagem Neonatal EII são os destaques do mês

Conheça as novidades sobre asma grave, rinossinusite crônica, esofagite eosinofílica, dermatite atópica e urticária crônica

No início de julho, a ASBAI promoveu aos seus associados o webinar com os “Highlights EAACI 2025″, destacando algumas das principais novidades e avanços científicos apresentados no Congresso Anual da Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica realizado em junho, deste ano.

A Dra. Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da ASBAI, abriu o evento anunciando os tópicos mais importantes discutidos no congresso europeu e com temas selecionados, que podem impactar a prática clínica dos especialistas. O Dr. Dirceu Solé, diretor de Pesquisa da ASBAI, foi o moderador do webinar.

Abaixo, os destaques das cinco aulas apresentadas:

Dr. Pedro Giavina-Bianchi Júnior – Tratamento da asma grave: eficácia dos biológicos na vida real

Nas últimas duas décadas, os avanços no tratamento da asma resultaram em uma expressiva redução de 75% nas internações hospitalares e em melhorias significativas na qualidade de vida dos pacientes. No passado, o Brasil registrava mais de 400 mil internações anuais por asma na rede pública; atualmente, esse número caiu para menos de 100 mil, evidenciando os importantes progressos no manejo da doença.

Um marco fundamental nessa trajetória foi a introdução dos corticosteroides inalatórios, que transformaram o tratamento ao atuarem diretamente sobre a inflamação subjacente às crises de broncospasmo. Mais recentemente, entramos na era dos imunobiológicos — terapias altamente específicas que ampliaram as possibilidades terapêuticas, especialmente nos casos moderados a graves.

Segundo o GINA (Global Initiative for Asthma), pacientes com asma grave que atingem o step 5 têm indicação para o uso de imunobiológicos que modulam a inflamação do tipo 2 — processo presente em cerca de 85% dos casos de asma em adultos e em 100% das formas alérgicas.

No GINA 2025, cinco imunobiológicos seguem recomendados para o tratamento dessa via inflamatória na asma.

Um estudo recente de destaque, o Evereste, comparou o desempenho do omalizumabe e do dupilumabe em pacientes com asma grave e rinossinusite crônica com polipose nasal. Trata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, de fase 4, com 360 participantes. Os resultados mostraram que o dupilumabe foi superior ao omalizumabe em diversos desfechos, como melhora do olfato, redução do escore de pólipos nasais e melhor desempenho no SNOT-22 — instrumento que avalia a qualidade de vida relacionada à rinossinusite.

As principais mensagens trazidas pelo EAACI 2025, realizado em Glasgow, reforçam que a maioria dessas doenças respiratórias é mediada pela inflamação tipo 2. O tratamento precoce com terapias de precisão é essencial para alcançar a remissão clínica. Destaca-se, ainda, os imunobiológicos não atuam apenas sobre a asma de forma isolada, mas também sobre as múltiplas multimorbidades frequentemente associadas.

Dr. Eli Mansur – Rinossinusite crônica – o que há de novo no tratamento

A rinossinusite crônica com pólipo nasal é uma doença inflamatória do tipo 2 que afeta aproximadamente 1% a 5% da população global, representando um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. Esta condição se caracteriza por sintomas como obstrução nasal, secreção persistente, anosmia (perda de olfato) e infecções respiratórias recorrentes, muitas vezes debilitantes. Nos casos graves, a refratariedade aos tratamentos médicos e cirúrgicos convencionais representa um desafio notável na prática clínica.

Um estudo recente liderado por grupos de pesquisa da USP de Ribeirão Preto e da UNICAMP, com a colaboração de outros centros de referência, avaliou a eficácia do Dupilumabe no tratamento da rinossinusite crônica com pólipo nasal grave, refratária a terapias otimizadas. Este anticorpo monoclonal, que age bloqueando os receptores das interleucinas IL-4 e IL-13, centrais na cascata inflamatória do tipo 2, tem apresentado resultados promissores na redução da inflamação e na melhora dos sintomas.

O estudo incluiu 53 pacientes acima de 18 anos com diagnóstico de rinossinusite crônica com pólipo nasal grave, todos refratários a tratamentos prévios. Os critérios de inclusão foram Evidências de inflamação do tipo 2, incluindo Presença de eosinófilos na mucosa nasal (≥10 por campo em biópsia), IgE total elevada (≥ 100 UI/mL). Parâmetros clínicos como anosmia, asma não controlada, e SNOT-22 ≥ 35 (score de avaliação de impacto da doença na qualidade de vida).

Os pacientes foram submetidos a intervenções com Dupilumabe com acompanhamento clínico regular. Os desfechos avaliados incluíram:- SNOT-22: antes e após 12 meses de tratamento, endoscopia nasal, função olfatória, condições associadas, como a DREA (doença respiratória exacerbada por anti-inflamatórios).

A população estudada foi majoritariamente composta por mulheres (idade média de 52 anos), com alta prevalência de asma (96%) e de DREA (62%). Os resultados foram significativos com redução expressiva do SNOT-22 após 12 meses de tratamento, indicando melhora substancial na qualidade de vida. Avanços consideráveis também foram observados na função olfatória e nos scores objetivos de polipose nasal.

Os achados desse estudo reforçam o potencial do Dupilumabe como uma terapia eficaz para pacientes com rinossinusite crônica com pólipo nasal grave, especialmente aqueles refratários aos tratamentos convencionais.

Dra. Raquel Baldaçara – Diagnóstico e tratamento da esofagite eosinofílica

A esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença inflamatória crônica caracterizada por disfunção esofágica, com forte impacto na qualidade de vida dos pacientes. O diagnóstico de EoE requer endoscopia com biópsias seriadas: são indicadas pelo menos seis biópsias (duas no esôfago proximal, duas no médio e duas no distal) e critério histológico: presença de ≥ 15 eosinófilos por campo de grande aumento.

Para a avaliação da intensidade e frequência de sintomas de EoE, há ferramentas como questionários para crianças e adolescentes, como o PEESS versão 2.0 (Pediatric Eosinophilic Esophagitis Symptom Scores) e o PESQ-C (caregiver)/PESQ-P(patient) (Pediatric Eosinophilic Esophagitis Sign/Symptom Questionnarie). O PEESS v 2.0 é indicado para a faixa etária de 2 a 18 anos de idade. É aplicado aos pais e a partir de 8 anos há a versão para pacientes, este escore avalia domínios como: disfagia, doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), náuseas/vômitos e dor.  Já o PESQ foi desenhado para avaliar crianças maiores de 1 ano de idade e menores de 12 anos, é respondido pelos cuidadores (PESQ-C) e a partir de 8 anos e menores de 12 anos os pacientes podem também responder o formato (PESQ-P). No entanto, nenhum desses instrumentos substitui a endoscopia para diagnóstico e seguimento. Outro método importante que pode ser aplicado em todas as idades para avaliar a gravidade da EoE é o I-SEE (Index of Severity for Eosinophilic Esophagitis) que avalia sintomas, alterações histológicas e endoscópicas.

Há uma forte predisposição genética com interações imunológicas e fatores ambientais na EoE. Já foram associadas alterações em vários genes na EoE, destacam-se alterações no gene CAPN14 que desempenha papel importante na patogênese, pois altera as proteínas de junção de barreira epitelial da mucosa esofágica, especialmente em pacientes com expressão elevada de IL-13 que estimula o aumento da expressão de calpaína-14, que por sua vez, decresce a expressão de desmogleína 1 (DSG1) e impactam a barreira epitelial. Estudos em gêmeos monozigóticos reforçam o componente genético.

Desta forma, a fisiopatologia da EoE envolve uma disfunção complexa da barreira esofágica, com ativação da resposta Th2 (T2 elevada), mediada por IL-4, IL-13 e IL-5, esta última promove o recrutamento de eosinófilos principalmente. Outra citocina relevante é TGF-b (Fator de crescimento transformador beta) que atua à medida que a doença se torna crônica e ocorre o remodelamento esofágico. Estudos recentes destacam o papel da oncostatina-M (OSM-1) que é um membro da família de IL-6, que estimula a perpetuação da inflamação, estimula fibroblastos, atuando, especialmente, no fenótipo fibroestenótico.

Outro aspecto apresentado no Congresso da EAACI 2025, foi o conceito de novas variantes de EoE proposto pelo Dr. Thomas Greuter como EoE-like (fenótipo com características clínicas semelhantes às de EoE, mas com < 15 eosinófilos por campo de grande aumento), outras formas citadas por ele são a esofagite inespecífica e a esofagite linfocítica, o mesmo paciente pode transitar entre as diferentes variantes de esofagite ao longo do tempo. Pacientes com EoE-like podem evoluir para EoE clássica em cerca de 62,2% dos casos ao longo de 6 anos. Estudos reforçam a importância das endoscopias seriadas.

Um estudo da Dra. Mirna Chehade (EUA) revelou que o tempo médio para diagnóstico de EoE é de 5 anos nos EUA, podendo chegar a 11 anos em casos extremos. Importante ressaltar que o diagnóstico tardio pode levar a remodelamento esofágico irreversível, aumentando o risco de complicações como ruptura ou perfuração esofágica embora rara (síndrome de Boerhaave) com risco de óbito se não for tratada.

A individualização do tratamento é fundamental. Pacientes refratários a tratamentos com uso de inibidor de prótons ou corticoides tópicos deglutidos (budesonida ou fluticasona) ou até mesmo dieta de exclusão  ou em casos graves que já foram associadas alternativas de tratamento, podem ser indicado o dupilumabe nestes casos de resposta insuficiente a tratamentos de primeira linha ou em pacientes com inflamação Th2 elevada e doenças associadas como, por exemplo,  asma moderada/grave, dermatite atópica moderada/grave, rinossinusite crônica com polipose nasal.

A EoE é uma doença de evolução complexa, que impacta não apenas o esôfago, mas também a saúde mental e a qualidade de vida do paciente. O diagnóstico precoce e o tratamento imediato podem prevenir complicações graves, como remodelamento esofágico e ruptura esofágica.

Dr. Herberto Chong Neto – Tendências e considerações a respeito das comorbidades em pacientes com dermatite atópica

Durante a aula ministrada pelo professor Peter Schmidt-Grendel Mayer, da Suíça, foram discutidas tendências e considerações relevantes sobre as comorbidades atópicas e não atópicas em pacientes com dermatite atópica.

O professor Peter trouxe a metáfora do “iceberg”, destacando que a dermatite atópica representa o topo, enquanto suas comorbidades, muitas vezes subestimadas, incluem:

– Comorbidades alérgicas atópicas: Asma, rinite alérgica e alergia alimentar.

– Comorbidades não alérgicas: Infecções, transtornos mentais e problemas relacionados ao sono.

Os fatores que contribuem para infecções em pacientes com dermatite atópica são a disbiose cutânea, quando ocorre o desequilíbrio microbiano devido à supressão da barreira imunológica e colonização por Staphylococcus aureus; e as infecções de pele, quando o risco de infecções é significativamente maior em pacientes com dermatite atópica, agravando o quadro clínico geral.

Também foi apresentado a relação da saúde mental e a dermatite atópica grave, que aumenta substancialmente o risco de transtornos mentais:

– TDAH: Pacientes graves apresentam risco 4x maior de desenvolver TDAH. Em casos leves, o risco ainda é elevado, com 1,6x mais chances.

– Ansiedade: Proporcionalmente maior à gravidade da doença.

– Depressão: Associada a quadros moderados, embora não necessariamente aos casos mais graves.

– Transtornos de Conduta: Até 4x mais frequentes em pacientes com dermatite grave.

– Autismo: Maior probabilidade, com risco até 7x maior.

O impacto da dermatite atópica na qualidade do sono é marcante. Em pacientes sem dermatite, até 65% relatam noites adequadas ao longo da semana. Com dermatite atópica grave, esse número cai para 55%.  O uso de dupilumabe demonstrou melhora significativa da qualidade do sono em pacientes com dermatite moderada a grave comparado ao placebo.

Comorbidades Cardiovasculares

Um estudo recente publicado em maio de 2024, no periódico Allergy, revelou que pacientes com dermatite atópica, especialmente casos puros (sem outras comorbidades atópicas), apresentam maior ocorrência de doenças cardíacas, hipertensão arterial.

A aula do professor Peter Mayer reforça a necessidade de observação integral do paciente: Atentar-se não apenas às comorbidades atópicas (asma, rinite), mas também às não alérgicas, como transtornos mentais, infecções e desordens cardiovascular e do sono.

É preciso investir em terapias que promovam melhora da qualidade de vida, como biológicos (ex.: dupilumabe), que apresentam benefícios evidentes em sintomas como coceira, lesões cutâneas e qualidade do sono.

Dra. Solange Valle – Urticária crônica: Atualizações do novo consenso

Embora o novo consenso sobre Urticária Crônica (UC) ainda não tenha sido oficialmente publicado, o manuscrito já está em fase de elaboração. No entanto, importantes atualizações foram apresentadas durante o congresso, e destacamos aqui os principais pontos.

A classificação da urticária foi mantida: considera-se urticária crônica aquela que persiste por seis semanas ou mais. Essa condição continua dividida em urticária crônica espontânea (UCE) e urticária crônica induzida (UCInd), sendo esta última subdividida em formas físicas e não físicas — com 90% de concordância entre os especialistas.

Quanto ao algoritmo diagnóstico inicial da UCE, não houve alterações significativas. Reforça-se, contudo, a importância do diagnóstico diferencial, especialmente no caso de angioedema isolado, que pode estar associado ao uso de medicamentos, ao angioedema hereditário ou ainda a outras condições. Também deve-se avaliar pacientes que apresentam apenas urticas, investigando possíveis manifestações sistêmicas que possam sugerir doenças autoinflamatórias. O algoritmo mantém sua função essencial: diferenciar UCE da UCInd.

Novidades no diagnóstico diferencial incluem duas novas condições: dermatose eosinofílica associada à malignidade hematológica e síndrome hipereosinofílica, agora listadas como possibilidades a serem consideradas.

Uma importante inovação é a adoção da abordagem individualizada baseada nos “7 Cs”, que orienta a avaliação clínica de forma abrangente:

1 – Confirmação da história clínica;

2 – Causa, incluindo investigação de possíveis indicadores de UCE tipo 1 ou tipo 2B e cofatores desencadeantes;

3 – Cofatores, potenciais gatilhos/ agravantes;

4 – Comorbidades, como urticária induzida associada, doenças autoimunes, transtornos mentais e alergias;

5 – Consequências da doença na qualidade de vida, sono e desempenho profissional;

6 – Componente, ou seja, avaliação de biomarcadores e preditores de resposta terapêutica;

7 – Curso da doença, com monitoramento da atividade e impacto na vida do paciente.

Estudos apontam que entre 50% e 60% dos casos de urticária crônica são de origem autoimune. Por isso, o novo consenso reforça a importância da identificação dos subtipos autoimunes:

– Tipo 1 (autoalérgico): Presença de IgE dirigida contra autoantígenos (mais comumente anti-TPO, mas também IL-24, entre outros). Frequentemente associada a doenças alérgicas, níveis elevados de IgE total e boa resposta ao omalizumabe.

– Tipo 2B (autoimune): Caracterizada por IgG contra IgE ou contra o receptor de alta afinidade da IgE, com ativação do complemento. Nesses casos, há maior prevalência de comorbidades autoimunes, níveis reduzidos de IgE e pior resposta ao omalizumabe.

Alguns biomarcadores podem auxiliar nessa diferenciação, como eosinopenia, basopenia, PCR elevada e FAN positivo.

Um ponto de consenso unânime foi a recomendação de que todos os pacientes sejam avaliados em cada consulta utilizando ferramentas específicas validadas, como o UAS7, CUQ2oL, e UCT para urticária e o AAS, AEQoL e AECT nos casos de angioedema. Outra inovação importante é o aplicativo CRUSE, desenvolvido para o monitoramento da urticária. Ele é interessante porque o paciente vai respondendo pelo próprio celular. Além disso pode enviar imagens para o médico, facilitando o acompanhamento remoto e contínuo da doença.

A grande mudança que aconteceu em relação ao novo consenso está no algoritmo de tratamento da UCE. O uso de anti-histamínicos de segunda geração em dose padrão continua sendo a primeira linha de tratamento, podendo-se aumentar a dose até quatro vezes, se necessário. Até então, diante de resposta inadequada em duas a quatro semanas (ou antes, em casos mais graves), recomendava-se a introdução do omalizumabe como segunda linha. O último consenso já permitia o aumento da dose até 600 mg a cada 15 dias. Então qual foi a grande novidade em relação ao algoritmo de tratamento da UCE nesse novo consenso? O que muda agora é que, além do omalizumabe, passam a ser opções terapêuticas o dupilumabe e o remibrutinibe, que entram na mesma etapa do algoritmo.

Ou seja, pacientes que não respondem à dose aumentada de anti-histamínico podem receber qualquer um dos três medicamentos. O dupilumabe já está aprovado no Brasil, Japão, EUA e Emirados Árabes Unidos. E, em casos de resposta ainda insatisfatória, a ciclosporina permanece como opção de terceira linha.

Em relação ao manejo da urticária em populações especiais como crianças, gestantes e lactantes não houve modificações.

Essas atualizações representam um avanço significativo no manejo da urticária crônica, permitindo uma abordagem mais precisa, personalizada e eficaz para os pacientes.

Este ano, a ASBAI marcou presença de forma ativa e inédita no Congresso da EAACI, um dos mais importantes eventos na área de Alergia e Imunologia no mundo. “Organizamos um simpósio com palestrantes nacionais, por meio do qual pudemos compartilhar nossa experiência e epidemiologia em doenças alergoimunológicas. Explanamos e discutimos sobre a importância e o status da triagem neonatal, a epidemiologia e o acesso ao tratamento do angioedema hereditário e da anafilaxia. Foi um momento memorável no qual pudemos demonstrar a evolução e o compromisso com a excelência de nossa especialidade no Brasil”, finaliza a presidente da ASBAI.

Triagem neonatal para EII: Reflexões e desafios no Brasil

“Triagem Neonatal para Erros Inatos da Imunidade” foi o tema da IV edição do Alergo Imuno em Foco promovido pela ASBAI, e que reuniu especialistas da área de imunodeficiências para debater os avanços, desafios e caminhos futuros no rastreamento neonatal no Brasil. A discussão contou com a participação de profissionais de diversos estados e trouxe à tona experiências e propostas para melhorar o diagnóstico e tratamento de doenças raras em recém-nascidos.

Apresentado pelas doutoras Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da ASBAI, e Dra. Ekaterini Goudouris, coordenadora do departamento científico de Erros Inatos da Imunidade, o evento contou com a moderação dos doutores Dr. Antonio Condino-Neto e Gesmar Rodrigues Silva Segundo.

Os participantes do evento relembraram o marco da Lei Federal 14.154 de 2021, que ampliou oficialmente o Programa Nacional de Triagem Neonatal. O programa passou a incluir, em etapas progressivas, novas doenças como imunodeficiências primárias, atrofia muscular espinhal e distúrbios metabólicos. No entanto, como discutido pelo Dr. Carlos Eugênio Fernandez de Andrade, assessor técnico médico do Programa de Doenças Raras – DCNT – Coordenadoria de Atenção Básica, a implementação dessa lei ainda enfrenta desafios, especialmente com relação à regulamentação e ao custeio da ampliação.

O ponto de destaque foi a relevância da triagem neonatal como uma ferramenta vital para a detecção precoce de doenças graves, como a imunodeficiência combinada grave (SCID) e agamaglobulinemias, condições que, sem um diagnóstico precoce, têm prognósticos muito desfavoráveis.

Experiências regionais

Os estados de São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal compartilharam suas trajetórias na implementação ampliada da triagem neonatal:

São Paulo: A Dra. Mariana de Gouveia Pereira Pimentel, membro do departamento científico de Erros Inatos da Imunidade,  detalhou o pioneirismo da cidade de São Paulo, que ampliou a triagem neonatal em 2020, incluindo 27 doenças no perfil básico e 50 no perfil ampliado para recém-nascidos de UTI. “Tal iniciativa, financiada majoritariamente pelo tesouro municipal, já resultou em diagnósticos significativos de erros inatos de metabolismo e imunidade”, contou a médica.

Minas Gerais: A Dra. Fernanda Gontijo Minafra Silveira Santos, membro do DC de Angioedema Hereditário, destacou a implementação liderada pelo NUPAD (Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio ao Diagnóstico da UFMG). “Mesmo com a abrangência de um estado tão grande, a triagem tem conseguido diagnósticos importantes, embora a descentralização do atendimento a pacientes ainda seja um desafio, dado o número reduzido de imunologistas no estado”, relatou a especialista.

Distrito Federal: Já a Dra. Fabiola Scancetti Tavares, integrante do departamento de EII da ASBAI, contou a experiência do Hospital da Criança de Brasília, que iniciou a triagem ampliada em 2023. “A abordagem interdisciplinar possibilitou integração rápida para diagnóstico e tratamento, com destaque para a realização de transplantes de medula óssea no próprio hospital, consolidando um modelo robusto”, disse a médica. 

Desafios: A ampliação da triagem neonatal para erros inatos da imunidade depende ainda da proatividade de estados e municípios. Além disso, em estados maiores, como SP e MG, a concentração de especialistas nas capitais limita o acesso de pacientes de regiões mais distantes. A necessidade de qualificar profissionais e criar centros regionais foi amplamente debatida.

Vacinação BCG: O impacto da vacinação precoce com BCG em recém-nascidos com imunodeficiências provocou debates sobre a necessidade de atrasar a aplicação em regiões com triagem neonatal ativa. A experiência em Minas Gerais, por exemplo, já adota como prática um intervalo entre a data do nascimento e a vacina, conforme orientação da Sociedade Mineira de Pediatria em casos específicos.

Futuro: Conforme enfatizado pelo Dr. Antônio Condino Neto, o progresso na triagem neonatal depende da articulação com gestores públicos, legisladores e associações de pacientes para viabilizar recursos e legislação específicas.

Ao final do evento, reforçou-se o otimismo com os avanços obtidos. “Apesar das dificuldades, a colaboração entre profissionais, associações e órgãos públicos cria perspectivas promissoras. Pretende divulgar os resultados e experiências do webinar para ampliar o debate em todo o país”, finaliza a Dra. Ekaterini Goudouris. E acrescenta “É preciso ressaltar que a legislação precisa ser cumprida e que, para isso, municípios e estados precisam se mobilizar para implementar o que diz a Lei. Esse é o ponto mais importante!”.