EDITORIAL | Anafilaxia: informação Salva!
Anafilaxia: informação Salva!
*Por Marisa Ribeiro
O termo “anafilaxia” foi cunhado por Richet e Portier em 1902. Eles observaram reações inesperadas em cães que recebiam injeções de toxinas de anêmonas do mar, levando à morte de alguns animais. Essa descoberta pioneira resultou no Prêmio Nobel de Medicina em 1913. Desde então, nossa compreensão sobre anafilaxia evoluiu significativamente, com a descoberta dos mastócitos, basófilos e seus mediadores, além do papel crucial da IgE na ativação dessas células.
A Semana Mundial de Alergia, que ocorreu de 29 de junho a 05 de julho em 2025, trouxe o tema da anafilaxia como destaque. A Organização Mundial de Alergia chama a atenção para a necessidade de divulgação, pesquisas e educação nessa condição singular, já que atinge 3 a 5% da população ao longo da vida. Além disso, estima-se que 25 a 50% dos pacientes que apresentam anafilaxia tenham um ou mais episódios subsequentes.
É notável o aumento das doenças alérgicas nas últimas décadas. Aspectos individuais, como fatores genéticos, podem predispor a alergias. Vivemos um momento histórico de grande evolução tecnológica. Não obstante, deparamo-nos com mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global e seus efeitos nas doenças alérgicas, compondo os fatores epigenéticos.
Se, por um lado, temos conhecimento sobre várias causas de anafilaxia, critérios que direcionam nossas condutas e protocolos de tratamento; por outro, enfrentamos muitos desafios que nos levam a reflexões.
As mudanças nos padrões de consumo, com contato da população com uma diversidade cada vez maior de substâncias, presentes tanto em alimentos, quanto produtos para fins diversos, como cosméticos, novos medicamentos e substâncias usadas em procedimentos, criam a necessidade de ampliarmos nossa visão e abrem o leque de diagnósticos etiológicos nos diferenciais.
A anafilaxia deve ser tratada rapidamente, mas muitos pacientes ainda não têm acesso a tratamento de emergência quando mais precisam.
Estamos no processo de busca por políticas públicas que protejam os pacientes, com a disponibilização de adrenalina autoinjetável, fundamental para o tratamento. Outras vias, além da intramuscular, podem ser uma perspectiva futura e, quem sabe, com menor custo.
A necessidade da disponibilização da dosagem de triptase nos ambientes de emergência é evidente. No entanto, para que isso seja efetivamente observado, deve haver solicitação do exame em todos os casos suspeitos que se apresentam na prática clínica.
Lançamos redes nessa semana com ações como vídeos para promoção de conscientização sobre vários aspectos da anafilaxia tais como: diagnóstico, causas, tratamento e prevenção. Ações regionais também foram realizadas, bem como lançamento do e-book sobre anafilaxia, que já está disponível com acesso aberto para leigos.
Assim, as sementes foram lançadas e esperamos que frutifiquem.
Você, caro leitor, pode ajudar nesse processo. A transformação ocorre com pequenos gestos de muitas pessoas. Por isso, incentivamos que dedique alguns minutos do seu dia para ajudar a alimentar o Registro Brasileiro de Anafilaxia. Precisamos de dados epidemiológicos e de pesquisas de peso para pleitear políticas públicas que garantam acesso à adrenalina autoinjetável e para preencher as lacunas que ainda existem nessa doença, instigante e desafiadora, mas que está no cerne de nossa especialidade.
*Marisa Ribeiro é Coordenadora do Departamento Científico de Anafilaxia da ASBAI
Referências:
Portier, P ∙ Richet, C. De l’action anaphylactique de certains venins. C R Séances Soc Biol. 1902; 54:170
Cardona V, Ansotegui IJ, Ebisawa M, El-Gamal Y, Fernandez Rivas M, Fineman S et al. World allergy organization anaphylaxis guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020 Oct 30;13(10):100472.
Burbank AJ, Penrice AJ, Rorie AC, Oh JW. Climate Change and Allergens: Current and Future Impacts. J Allergy Clin Immunol Pract. 2025 Jun;13(6):1281-1288.
